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Perdas de Colheita – Do campo ao armazenamento

As perdas na colheita não estão restritas apenas ao momento da entrada da colhedora na área. É necessário levar em conta o planejamento, o processo de cultivo e manejo da cultura como um todo. As perdas na colheita podem ser divididas em perdas pré-colheita, perdas no momento da colheita e perdas pós-colheita (transporte e armazenamento). 

É importante conhecer a fonte das perdas, como e onde ocorrem e, principalmente como minimizar as perdas de colheita, uma vez que não é possível zerar as perdas, mas é possível contorná-las e minimizá-las, adequando o manejo e as tecnologias disponíveis conforme a realidade do produtor. 

  • Perdas pré-colheita

Entende-se como perdas pré-colheita os danos causados às culturas por pragas, doenças e até mesmo a competição com plantas daninhas que venham a afetar a produção e qualidade do produto colhido. Por isso, é essencial que o manejo integrado desses agentes seja criterioso e acompanhado de assistência técnica. 

Fique ligado: uma parceria entre diversas instituições brasileiras de pesquisa, cooperativas e órgãos de extensão rural, desenvolveram um projeto para disseminar a aplicação e o manejo de pragas e doenças no cerrado. A EMBRAPA disponibiliza as técnicas que estão sendo adotadas para o MIP nas culturas do algodão (https://www.embrapa.br/arroz-e-feijao/mip/algodao), arroz (https://www.embrapa.br/arroz-e-feijao/mip/arroz), feijão (https://www.embrapa.br/arroz-e-feijao/mip/feijao), milho (https://www.embrapa.br/arroz-e-feijao/mip/milho), e da soja (https://www.embrapa.br/arroz-e-feijao/mip/soja). 

A presença de patógenos podem resultar nos chamados grãos ardidos, causando alterações no cheiro, paladar e produção de micotoxinas (https://pt.engormix.com/micotoxinas/artigos/graos-ardidos-milho-t38000.htm). Além dos efeitos prejudiciais à saúde humana e animal, e redução do valor e qualidade do produto durante a comercialização.

Na cultura do milho, os grãos ardidos podem ser causados pela podridão branca (Stenocarpella maydis ou S. macrospora), podridão vermelha da ponta da espiga (Giberella zeae) e podridão rosada (Fusarium spp.) (https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1012073/prevalencia-de-especies-de-fusarium-produtoras-de-fumonisinas-associadas-a-graos-de-milho-no-brasil). As estratégias para manejo (https://www.agrolink.com.br/noticias/como-fazer-o-manejo-de-grao-ardido_433922.html)  consistem na utilização de fungicidas antes do período vegetativo, uso de sementes idôneas, época de plantio adequada, adubação e rotação de culturas.  

Figura 1. Comparação de amostras de grãos de milho ardidos (A) e sadios (B). Foto: Rodrigo Véras da Costa (retirado: Link aqui

As perdas que antecedem a colheita, ainda podem ocorrer devido ao excesso de chuvas de final de ciclo, na fase de enchimento de grão e maturação, ocasionando o fenômeno da viviparidade, na qual ocorre germinação de sementes ainda na planta mãe. Na soja, esse fenômeno pode ocorrer devido a ocorrência de alta precipitação e dias nublados, uso de cultivares mais sensíveis a deiscência (abertura da vagem), seca no início do desenvolvimento da cultura ou abortamento de flores, alta densidade de plantio, desbalanço hormonal, e nutricional de potássio.

Isto pôde ser observado ao final do ciclo da soja de 20/21 no estado do Paraná, em que a elevada precipitação antecedendo a colheita ocasionou o abortamento de vagens, grãos ardidos e germinação dos grãos de soja ainda nas vagens em campo (https://www.canalrural.com.br/projeto-soja-brasil/parana-excesso-de-chuvas-faz-soja-germinar-graos-arderem-e-plantas-abortarem-vagens/)

soja abortamento vagem grão ardido
Figura 2. Grãos de soja ardidos e grãos germinando na vagem (viviparidade) ocasionadas por chuvas excessivas no período da colheita. Foto: Renan Haach

No Brasil é muito comum a prática da secagem de grãos ainda no campo, Apesar do baixo custo, o produtor fica exposto às intemperes climáticas e expõe o grão a ocorrência de pragas e doenças que podem ser levadas para o armazenamento. 

  • Perdas no momento da colheita

Na ocasião da colheita, podem ocorrer as perdas qualitativas devido a danos físicos no grão ou impurezas no grão limpo, e perdas quantitativas, ao que se refere aos grãos que permaneceram no campo. O nível total aceitável de perdas pela máquina situa-se entre 1 a 2%. Porém, é importante trabalhar para que as perdas não ultrapassem esse nível, pois em anos atípicos (por exemplo, com veranico) com maiores perdas, o produtor deixará em campo uma parte significativa da sua produtividade.

As perdas na colheita podem ser ocasionadas pela regulagem inadequada da colhedora tais como, altura da plataforma de corte,  velocidade de deslocamento acima do recomendado (de 6 a 8 km h-1), velocidade do molinete, rotação do cilindro trilhador e, abertura entre o cilindro e o côncavo. Foi observado que cerca de 80 a 85% das perdas na colheita ocorrem na plataforma de corte das colhedoras, 12% por mecanismos internos e apenas 3% por deiscência natural (Magalhães, 2009).

Durante o acompanhamento da colheita, deve-se ficar atento à alguns indicativos de perdas na colheita de cereais. (https://www.youtube.com/watch?v=yyMfpXeDzWA&list=PLQzQdNhlRlzngCS-XoG0BoKy8Jr3FnkY_&index=14): 

  • Ocorrência de debulha na plataforma: é um indicativo que o grão está seco de mais. Neste caso, é aconselhável diminuir a velocidade da máquina e, assim menor impacto entre o molinete e a vagem;
  • Grãos inteiros saindo pelo saca-palhas ou no final do rotor: é um indicativo de que a área está com excesso de mato ainda verde ou a velocidade de deslocamento da máquina está alta. Para ambos os casos, recomenda-se reduzir a velocidade da máquina;
  • Saída de vagens pelo saca-palha: pode estar ocorrendo dois problemas; a máquina com velocidade de deslocamento rápida e a trilha malfeita. É necessário diminuir a velocidade e aumentar a rotação do motor ou diminuir o espaço entre o côncavo e o cilindro;
  • Presença de grão com vagem no tanque graneleiro: é preciso ajustar o espaço da peneira em relação ao tamanho do grão. Atentar-se para mudanças de áreas com cultivares diferentes;
  • Palhiço ou pedaços de vagens no tanque graneleiro: é preciso aumentar a rotação do ventilador, mas atenção! Deve-se adequar ao nível do palhiço, pois, o excesso de vento pode jogar grão para fora;
  • Vibração excessiva da barra de corte: muita folga ou desalinhamento entre as peças da barra de corte. Deve-se eliminar as folgas e alinhar as peças;
  • Plantas cortadas amontoadas na barra de corte: o molinete ou a plataforma de corte devem estar altas. É necessárioreduzir a altura do molinete e, se necessário deslocá-lo para trás, e baixar a plataforma de corte para alcançar as plantas mais rentes do solo.

Como medir as perdas durante a colheita de grãos?

  1. Utilize um gabarito para demarcar os grãos no solo, que deve ter a largura da colhedora (ex.: 4,0 m) e uma altura prática (ex.: 0,5 m), logo a área do gabarito será de 2 m2.
  2. Após a colhedora passar, estenda o gabarito no solo e colete todos os grãos encontrados dentro dessa área delimitada, coloque-os no recipiente, identifique-os e pese (ex.: peso 1: 15 g).
  3. Repita a operação do item anterior mais 4 vezes no talhão, tendo o peso de 5 pontos no total (ex.: peso 1: 15 g; peso 2: 13 g; peso 3: 13 g; peso 4: 14 g; peso 5: 11 g)
  4. Faça a média das amostras: peso médio: (15 + 13 + 13 + 14 + 11) / 5 = 13,2 g.
  5. Calcule as perdas reais através de uma regra de três simples:

2,00 m2 ____ 13,2 g

10 000 m2___ X

X = 66 000 g ou 66 kg ha-1 

Obs: Não quantificar as áreas amostrais nas bordaduras, na prática recomenda-se entrar no mínimo 50 m para dentro do talhão e fazer cinco pontos amostrais.

Mesquita e Gaudêncio (1982) desenvolveram um método volumétrico que estima as perdas na colheita de soja, por meio da correlação entre o peso e o volume dos grãos. Com uma confiabilidade de 94%, este método consiste em coletar os grãos em uma área delimitada de 2,0 m2 e a leitura direta desses em uma escala de perda (em sacos de 60 kg por hectare). A armação que corresponde à área de 2,0 m2 para a coleta dos grãos, pode ser feita com ripas de madeira e barbante. Uma medida fixa e padrão de armação de 4,0 m de largura (Y) por 0,5 m de comprimento (X) pode ser adotada; armações com dimensões variáveis podem também ser confeccionadas, em função da largura da plataforma de corte da colhedora; para determinar a medida do comprimento deste tipo de armação, divide-se o número dois pela largura da plataforma (X = 2/Y). Por exemplo, em uma plataforma de 9,1 m de largura, o valor do comprimento da armação será de C = 2/9,1 = 0,22 m ou 22 cm. (Texto informado pela Embrapa).

Figura 3. Medida do comprimento de uma armação com 2,0 m2 de área, para a determinação de perdas de grãos na colheita de soja, utilizando uma plataforma de corte de 9,1 m de largura.
Figura 4. Copo medidor de perdas no momento da colheita da soja. Fonte: Embrapa
  • Perdas pós-colheita

Nessa etapa as perdas também podem ser qualitativas, quando se colhe o grão com teor de umidade acima do recomendado e não é feita a correção ou a secagem, ou ainda quando há ataque de pragas no armazenamento. E as perdas quantitativas, referem-se aquelas perdas durante o processo logístico desses grãos. De acordo com a CONAB (2021), estima-se que para milho e soja os custos variáveis de produção ficam entorno de R$ 60 bilhões e que parte desse valor investido é perdido nas operações de armazenagem e transporte.

  • Perdas no armazenamento

Os fatores que mais interferem na qualidade dos grãos durante a armazenagem são: Temperatura; Teor de umidade (%); Umidade relativa do ar. Na tabela 1, estão apresentados o percentual de umidade de café, milho, arroz, soja, sorgo e trigo em relação à colheita e ao armazenamento.

Percentual de umidade (%)
ProdutoColheitaIdealArmazenamento seguro
MáximoÓtimoApós secagem1 ano5 anos
Café6262121110
Milho2320-2211119 – 10
Arroz2117-191111-129 – 10
Soja18161111-129 – 10
Sorgo2623-26911-129 – 10
Trigo2315-17812-1310 -11
Tabela 1. Percentual de umidade de café, milho, arroz, soja, sorgo e trigo em relação à colheita e ao armazenamento. Fonte: Coleção Senar 216 (2018). (link aqui)

O controle da temperatura no ambiente de armazenamento é importante para impedir o processo de deterioração. O correto manejo fitossanitário da cultura e a secagem dos grãos, ou a colheita em teor adequado, são essenciais para impedir a proliferação de fungos que podem contribuir para o aumento da temperatura no armazenamento e consequentemente na deterioração dos grãos mais rapidamente. 

É necessário que o ambiente de armazenamento tenha boa circulação de ar e que os grãos sejam armazenados com o teor de água ideal. Grãos com umidade adequada e uniformemente distribuída por toda a massa podem permanecer armazenados com segurança por longo período. Vale ressaltar que a boa limpeza do material colhido é de extrema importância, pois a palha, grãos quebrados, resto de vagem e de planta também favorecem as perdas, uma vez que esses restos dificultam a passagem de ar para a aeração do grão provocando aumento da temperatura e da umidade.

Condições ambientaisTemperaturaPerda de matéria seca
Temp. ambiente – média25 ºCperda de 0.12% (= 1.2 t)
Temp. ambiente -alta35 ºCperda de 0.54% (= 5.4 t)
Grãos resfriados10 ºCperda de 0.02% (= 0.2 t)
Tabela 2. Influência do resfriamento na perda de matéria seca, considerando 1.000 t de milho a 15% de umidade e tempo de armazenamento de 30 dias. Fonte:  Heinrich Brunner (1989). Retirado de EMBRAPA .

O controle da temperatura e o resfriamento dos grãos no armazenamento é uma importante ferramenta para controlar o desenvolvimento de importantes pragas de grãos armazenados, pois grande parte do calor de do CO2 produzidos na respiração dos grãos úmidos é atribuída ao metabolismo de organismos presentes. De acordo com a Embrapa, o controle químico dos insetos torna-se desnecessário quando os grãos estão refrigerados e quando a temperatura está abaixo de 17 ºC.

As principais pragas de armazenamento de cereais estão divididas em basicamente dois grupos: besouros e traças, e são classificadas de acordo com seu hábito alimentar em pragas primárias (danificam os grãos íntegros e sadios) e pragas secundárias (alimentam-se de grãos já danificados).

A maneira mais eficaz para o controle desse complexo de pragas é a prevenção. Para isso, a unidade armazenadora deve ser limpa, eliminando todos os resíduos de grãos nas instalações, no armazém, corredores, passarelas, túneis, elevadores e nas moegas. Após, recomenda-se fazer a termo nebulização ou pulverização com inseticidas. Como citado anteriormente, o controle da temperatura nos silos é fundamental para o controle por meio da diminuição das taxas de alimentação, de reprodução e desenvolvimento dos insetos. O controle a atmosfera pela adição de CO2 sólido ou gasoso ou de gases de baixa concentração de O2 também é uma alternativa. O uso do pó inerte a base de terra de diatomáceas, quando misturado na massa de grãos, adere nos insetos, levando-os a morte por desidratação corporal; esse é um dos melhores métodos na atualidade por se tratar de um produto seguro para o usuário e de efeito inseticida duradouro.

Os métodos de controle químicos são os mais empregados. O tratamento preventivo consiste em aplicar inseticidas líquidos nos grãos quando está carregando o armazém. O tratamento curativo, ou também conhecido como expurgo, elimina as pragas infestantes através de gás, que deve ser liberado em vários pontos da massa de grãos.

Figura 5: Adulto de Rhyzopertha dominica;  Adulto de Sitophilus zeamais; Mariposa de Sitotroga cerealella. Foto: Clemson University – USDA.
  • Perdas no transporte

A CONAB lançou um livro sobre Perdas em Transporte e Armazenagem de Grãos, onde apresenta debates sobre a logística, ressaltando a importância dessa operação, uma vez que a produção no cerrado brasileiro, o sistema de plantio direto e o melhoramento genético permitiu a expansão da fronteira agrícola e o produtor pôde competir no mercado internacional. Entretanto, a logística necessária ao armazenamento e ao escoamento da produção caminhou a passos lentos. Para se ter uma ideia do quão precário está o sistema de escoamento de um dos maiores produtores de alimento do mundo, esse livro nos traz informações de que em 2015, em relação ao total de perdas de grãos no Brasil, perda de 45,53% foi ocasionada pela atividade de logística e armazenagem, 21,67% no transporte rodoviário da fazenda até o armazém, 13,31% no transporte rodoviário, 1,62% no hidroviário, 8,24% no ferroviário e 9,04% no porto.

Nessa publicação, os resultados dos estudos inferem que a capacidade total de armazenamento de um país deve ser 20% maior do que a produção. Porém, na safra de 2018/19 a produção foi de 242 milhões de toneladas e a capacidade estática de 169,8 milhões de toneladas. Já na safra de 2019/20, a produção alcançou 253,7 milhões de toneladas e 170,1 milhões de capacidade estática. A safra 2020/21 estima-se um volume de 272,3 milhões de toneladas de grãos, uma produção ainda maior que safras anteriores, sendo que não têm sido observado aumento significativo na capacidade de armazenamento para alocar toda a produção. 

Figura 6: Perdas de grãos no transporte rodoviário. Fonte: CONAB

Considerações finais

O planejamento é o item mais importante durante todo o ciclo de cultivo. A colheita é o momento em que o produtor terá o retorno de todo trabalho e investimento feitos durante a safra. 

É preciso salientar a necessidade de investimento em capacitação e treinamento dos gestores e funcionários para manutenção e calibração do maquinário, bem como o planejamento da jornada de trabalho das máquinas para que não ocorra desgastes das peças, com parada para ajustes na colhedora em áreas de diferentes relevos, cultivares. O produtor ainda pode contar com mais um aliado na tomada de decisão, o mapeamento das áreas e o uso de aplicativos e softwares agrícolas, que auxiliam de forma simples e completa possíveis problemas e intensidade em tempo real, possibilitando melhor gestão da propriedade e controle das operações agrícolas. 

Algumas dicas para uma colheita de qualidade envolvem uma excelente assistência técnica com planejamento, revisão das máquinas antes de entrar em campo, ter algumas peças em estoque caso ocorra algum imprevisto, ajustar a máquina para colher e sempre fazer o acompanhamento da colheita atentando-se à qualidade do trabalho e aos níveis de perdas.

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